A História demonstra que não há Estado autossuficiente e totalmente independente no cenário mundial. Pelo contrário, países buscam satisfazer seus interesses políticos, econômicos, sociais e científico-tecnológicos mediante relações bilaterais ou multilaterais com a comunidade internacional. Para tanto, as Relações Internacionais (RI) é a área, por excelência, que representa os interesses do Estado e que tem, como objetivo último, satisfazer suas demandas.
No campo energético, por conta da conscientização internacional sobre o aquecimento global, as mudanças climáticas e a necessidade de desenvolver a cadeia de produção do hidrogênio verde (H2V), uma nova expressão surgiu nas pautas das RI: a “diplomacia do hidrogênio”. Ainda no século XXI, se espera um mundo pós-petróleo, onde os combustíveis fósseis não sejam a primazia na geração de energia na indústria e nos transportes.
Acredita-se que o H2V possa contribuir para alcançar as metas de descarbonização, garantir novas fontes de energia e oferecer oportunidades econômicas para potenciais países produtores. Neste contexto, o acesso a tecnologias, fontes de energia renovável e a fabricação de produtos de energia verde seriam reconhecidos como uma vantagem geopolítica em uma economia global neutra em carbono.
Para se ter uma ideia, governos de potenciais países exportadores estariam implementando estratégias políticas com outros países no mais alto nível de sua diplomacia. A cadeia de valor do hidrogênio, como vetor energético, vem fomentando cooperações e investimentos internacionais mediante acordos bilaterais que variam desde estudos de viabilidade, cartas de intenções, memorando de entendimento, parcerias energéticas até a construção e operação de infraestruturas para facilitar o comércio transfronteiriço.
Nestes cenários de uma imperiosa cooperação internacional, se destaca a Alemanha, cujo governo vem fortalecendo suas relações diplomáticas nas temáticas de energia e clima. Para tanto, implementou o H2-diplo, uma iniciativa do Ministério das Relações Exteriores para apoiar a política externa alemã, trabalhando em conjunto com países parceiros para encontrar maneiras de usar o H2V para descarbonizar e diversificar as economias. Foi implementado pela Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) e financiado pela Internationale Klimaschutzinitiative (IKI).
Fato de grande relevância para impulsionar a Alemanha na diplomacia do hidrogênio foi a Guerra Rússia-Ucrânia, em 2022. A razão disso foi a constatação da alta vulnerabilidade e dependência energética do país com os russos: em media, 47% no volume de importações totais de combustíveis fósseis (55% para o gás natural, 50% para o carvão fóssil e 35% do óleo mineral).
Como resposta, o país não tardou em buscar alternativas para diversificar seu fornecimento energético a fim de reduzir a dependência das importações de combustíveis fósseis (de origem russa) sem ocasionar graves impactos nas metas de descarbonização.
Indo ao encontro do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a respeito da necessidade de cooperação internacional, o Conselho Mundial de Energia (WEC) citou a Alemanha como destacado partícipe de acordos bilaterais voltados ao comércio de hidrogênio nas áreas de gestão, desenvolvimento tecnológico e financiamento de projetos de sua cadeia de valor.
Estudos do WEC destacam a possibilidade de a Alemanha ser um país importador de hidrogênio líquido tendo vista sua procura por fornecedores para garantir seu consumo interno. Inclusive, busca consolidar um atlas mundial com potenciais países produtores de H2V, permitindo-lhe futuros acordos de importação.
Como se pode inferior, a Alemanha desponta como país que acredita na diplomacia do hidrogênio, pois, conforme ilustração abaixo, o país vem buscando desenvolver as cadeias globais de suprimento de hidrogênio de baixa emissão mediante acordos de cooperação regional e principalmente bilateral.
Acordos de cooperação entre economias para o H2 (2020-2022)
Consubstanciando o cenário politico-econômico-energético mundial, em 2023, houve a atualização da Estratégia Nacional do Hidrogênio da Alemanha e no mesmo ano, face a urgência da transição energética, o governo atualizou, também, a Estratégia Nacional de Segurança, enfatizando, à época, seu empenho no combate à crise climática considerada uma ameaça aos fundamentos da vida e da economia alemã.
Desta forma, conjugando as demandas de sua política interna e seus interesses internacionais, se verifica que a Alemanha vem tomando uma série de iniciativas voltadas para a sua política econômica-energética. E para isso, tem utilizado de forma intensa e satisfatória a diplomacia do hidrogênio mediante a consecução de uma serie de acordos e cooperações internacionais.
Assim, estas ações têm o potencial de confirmar o país como um reconhecido protagonista na transição enérgica global, contribuindo, decisivamente, para a descarbonização e o combate às consequências dos gases de efeito estufa.
REFERÊNCIAS:
- Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha (AHK). Hidrogênio. Disponível em: https://brasilien.rio.ahk.de/pt/transicao-energetica-e-sustentabilidade/hidrogenio
- Governo Federal da Alemanha. Estratégia Nacional de Segurança (ENS). Segurança Integrada para a Alemanha. Capaz de se defender. Resiliente. Sustentável. Disponível em: https://www.nationalesicherheitsstrategie.de/estrat%C3%A9gia-nacional-de-seguran%C3%A7a-PT.pdf.
- H2-diplo Decarbonization Diplomacy. What is H2-diplo? Disponível em: https://h2diplo.de/
- _______. What is “decarbonization diplomacy” and what is the role of H2-diplo?. Disponível em: https://h2diplo.de/more-about-h2-diplo/
- International Energy Agency (IEA). 2022. Disponível em: https://iea.blob.core.windows.net/assets/c5bc75b1-9e4d-460d-9056-6e8e626a11c4/GlobalHydrogenReview2022.pdf.
- LIMA, Loana Von Gaevernitz. Aspectos econômicos da cadeia de valor do hidrogênio: potencialidades e externalidades para o Brasil a partir de interações estratégicas com a Alemanha. Dissertação. Fundação Getúlio Vargas. Escola de Pós- Graduação em Economia. Rio de Janeiro, 2023.
- MARTINS, Thaís. Hidrogênio Verde coloca o Brasil na mira dos investidores. Revista Brasil-Alemanha, Ano 29, Nº 1. São Paulo, 2021.
- OLIVEIRA, Henrique Altemani de. Política Externa Brasileira. Editora Saraiva, 2005.
- World Energy Council (WEC). National Hydrogen Strategies. Hydrogen on the Horizon: Ready, Almost Set, Go?, 2021. Disponível em: http://surl.li/sggtba .