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Foto: National Geographic.

A Inglaterra é um país insular localizado na parte ocidental da Europa. Do ponto de vista geopolítico, a sua localização estratégica no Atlântico Norte lhe permitiu acessar rapidamente as principais rotas marítimas à época.

Motivada por razões políticas, econômicas, sociais e científicas-tecnológicas, a 1ª Revolução Industrial se tornou um marco na História da Humanidade, modificando os rumos da economia mundial e abolindo o sistema feudal. Foi um fenômeno único: tratava-se de uma sociedade precocemente amadurecida por conta do progresso técnico, isento de influências de países previamente industrializados.

Na expressão política, em 1651, o parlamento inglês aprovou um conjunto de leis denominado Atos de Navegação, de Oliver Cromwell, permitindo que nenhuma mercadoria deveria ser importada e exportada a não ser por navios ingleses. Em 1688, a Revolução Gloriosa aboliu a Monarquia Absolutista, dando lugar à Monarquia Parlamentarista Constitucional. A mudança de sistema de governo acarretou estabilidade política e fortalecimento da classe econômica, contribuindo para a expansão comercial, a acumulação de capital, o desenvolvimento do capitalismo além do aumento de leis e atos do Parlamento beneficiando as atividades manufatureiras.

Economicamente, a situação britânica passou por um conjunto de transformações na sua estrutura que a transformou no primeiro país industrializado. Para o economista David Landes, a Revolução Industrial Inglesa é entendida como o primeiro exemplo histórico do avanço de uma economia agrária e artesanal para uma economia dominada pela indústria e pela manufatura mecanizada. De fato, o mundo assistiu a uma transformação ampla e profunda, em que a produção passara a fundamentar-se em métodos, princípios e práticas capitalistas.

Na agropecuária, o país era grande produtor de lã e algodão, o que lhe permitiu mudar a indústria e impulsionar o desenvolvimento econômico. Estes produtos foram utilizados na indústria têxtil, fomentando o progresso das manufaturas de fiação e tecelagem. À época, nenhum país possuía uma oferta tão abundante de lã, em especial as de fibras longas exigidas pelos tecidos mais leves e resistentes.

Ainda no século XVIII, diversas invenções alteraram a indústria algodoeira, originando um novo sistema fabril. No século XIX, a expansão da manufatura transformou o país em um polo industrial onde a maior parte das inovações ocorreu.

A existência de reservas de carvão e ferro foram, também, fundamentais, respectivamente, na produção de energia e na construção de máquinas e equipamentos. Inclusive, os aperfeiçoamentos da máquina a vapor asseguraram um novo ente energético, superior à força da água, dos animais e do homem, consolidando a produção têxtil e as atividades metalúrgicas.

Para que os produtos fossem comercializados no mercado interno, foram feitos investimentos na infraestrutura de transporte (estradas, pontes e canais) e os centros de produção tiveram acesso às vias navegáveis, permitindo que a distribuição alcançasse menores custos de venda. Para atividades ultramarinas, o país investiu em portos, assegurando melhores condições de importação e exportação e fortalecendo, assim, o comércio internacional e a indústria naval.

Destaca-se que o Império Britânico usufruía do “pacto colonial” de modo que não tinha dificuldade de acessar matérias ao parque industrial e vender os produtos ao mercado consumidor internacional. Desta forma, o comércio exterior teve uma contribuição vital para impulsionar o crescimento econômico. As indústrias exportadoras tiveram crescimento acelerado com uma taxa de 4,6% no período de 1780 a 1800, sendo o maior responsável pelo significativo crescimento da economia inglesa.

De uma produção artesanal, surgiu a produção em série, refletindo no aumento da produtividade. Substituía-se as habilidades do homem por dispositivos mecânicos; a força humana pela energia. Com a produção em massa, atingir-se-ia a economia de escala, reduzindo custos de produção e incrementando a competitividade.

A supremacia comercial lhe possibilitou atingir o status de potência econômica, justificada pela utilização judiciosa dos fatores de produção: matéria prima, mão de obra, energia, transporte, mercado consumidor, investimentos de capital e tecnologia.

Contudo, a 1ª Revolução Industrial trouxe consequências negativas: as transformações econômicas vieram acompanhadas da degradação do meio ambiente, pelo aumento da poluição atmosférica, pela contaminação da água e do solo. Em outras palavras, o desenvolvimento industrial não era sustentável por utilizar intensamente energias fósseis e poluentes.

Na expressão social, entre 1600 e 1700, a população de Londres dobrou em relação ao período de 1500 a 1600, chegando a aproximadamente um milhão de habitantes em 1800. No século XVIII, o nível de urbanização subiu em toda a Inglaterra como resultado das exportações de manufaturas para o mercado colonial. Parte desta mão de obra, empregada nas indústrias têxtil, siderúrgica e metalúrgica, viera do campo, pois desde o século XVI a nobreza vinha expulsando os camponeses de suas terras (processo conhecido como cercamentos) para serem transformadas em pastagens de ovelhas, cuja lã era comercializada em grande escala na produção de tecidos.

Desta forma, muitos agricultores foram obrigados a buscar novas atividades, intensificando a migração para as cidades. Por isso, o processo crescente de urbanização foi considerado essencial para as mudanças no padrão de consumo da época, atrelado ao avanço da comercialização e industrialização. Alguns fatores chaves para o desenvolvimento do mercado interno do país foram o aumento populacional, o aumento da renda média e a livre iniciativa comercial.

Na Inglaterra do século XVIII, havia um nível de qualificação técnica sem igual, onde o povo inglês era muito mais interessado pelas máquinas e “engenhocas” do que em outros países europeus. Naquelas circunstâncias, o sistema social passou por rápidas transformações pelas mudanças no sistema produtivo e pelas relações de trabalho.

Do ponto de vista científico-tecnológico, a mudança foi possibilitada pelo aperfeiçoamento de novos métodos diante das técnicas vigentes, criando uma nova mentalidade empresarial ao analisar os investimentos e os possíveis riscos incorridos. O impulso dado à pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) foi essencial para buscar métodos mais eficientes que gerassem um ambiente propício para novas invenções. Essas inovações foram mais acentuadas a partir da segunda metade do século XVIII, facilitada pelo desenvolvimento da energia mecânica.

Inquestionavelmente, o período compreendido da Primeira Revolução Industrial se diferenciou pelo avanço tecnológico, tornando o crescimento econômico irreversível. Setores de siderurgia e metalurgia experimentaram um intenso progresso. Antes de 1760, os registros de invenções patenteadas eram muito reduzidos. De 1630 a 1759, foram somente 430 invenções registradas; enquanto no período de 1760 a 1849, foram 12.158, números que atestam o incrível salto em invenções, ratificando o quando a PD&I foram partícipes do desenvolvimento do país.

Patentes registradas na Inglaterra entre 1630 a 1849

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À época, o país dispunha de profissionais qualificados para introduzir inovações e empreendedores para desenvolvê-las, antevendo uma possibilidade de investimento muito melhor do que nos métodos tradicionais. Estas invenções tiveram como resultado o avanço acelerado em três setores fundamentais na economia inglesa: fundição de ferro, fiação do algodão e produção de energia a vapor.

Os resultados acima denotaram a autonomia intelectual, a consolidação do método científico e o desenvolvimento de pesquisa como uma atividade de rotina na Inglaterra. Como síntese final dos fatores que contribuíram com a 1ª Revolução Industrial, foi elaborado resumidamente a tabela abaixo.

Síntese dos Fatores de Sucesso na 1ª Revolução Industrial

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Por fim, a Revolução Industrial continuou a se expandir ao longo do século XIX, transformando completamente a sociedade, a economia e a produção em todo o mundo. A máquina a vapor, os teares mecânicos e o desenvolvimento de fábricas foram apenas o começo de uma mudança profunda e duradoura que marcou a história da industrialização.

Como conclusão, se depreende que o contexto histórico de fatos de grande relevância fornece ensinamentos pelos quais poder-se-ia, ao melhor compreender as origens daqueles acontecimentos, aprimorar a tomada de decisões no presente ao aproveitar-se das lições do passado. Na obra “O Príncipe”, de 1513, Nicolau Maquiavel salienta que “percorrendo os homens quase sempre as estradas já desbravadas pelos demais, não sendo possível seguir fielmente as trilhas alheias, deveria o homem prudente imitar aqueles que foram excelentes para ao menos usufruir algum proveito”.

Destas considerações, se pergunta: haveria ensinamentos políticos, econômicos, sociais e científicos-tecnológicos, no período de 1760 a 1850, poderiam ser aplicados ainda no século XXI?

REFERÊNCIAS:

  • ALLEN, Robert C. Why the industrial revolution was British: commerce, induced invention, and the scientific revolution. The Economic History Review, 2011.
  • ARRUDA, José Jobson de Andrade. A Revolução Industrial. Série Princípios. Editora Ática, São Paulo, 1988.
  • GALA, Paulo. Breve história da revolução industrial na Inglaterra. Disponível em: https://www.paulogala.com.br/breve-historia-da-revolucao-industrial-na-inglaterra/
  • IANNONE, Roberto Antonio. A revolução industrial. Coleção Polêmica. 2ª Ed. São Paulo : Moderna, 1992.
  • IGLÉSIAS, Francisco. A revolução industrial. Editora Brasiliense. Coleção Tudo é História. 10ª Ed. São Paulo, 1990.
  • LANDES, David. Prometeu desacorrentado: transformação tecnológica e desenvolvimento industrial na Europa ocidental, de 1750 até os dias de hoje. 2. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005.
  • LIMA, Elaine Carvalho de; NETO, Calisto Rocha de Oliveira. Revolução Industrial: considerações sobre o pioneirismo industrial inglês. Revista Espaço Acadêmico, nº 194. Julho, 2017.
  • MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Tradução de Rafael Arrais. São Paulo, 2023.
  • MELLO, João Moreira Schneider de. Inovações técnicas na Revolução Industrial Inglesa: duas visões. Pré-projeto de monografia. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Instituto de Economia, 2012.