O Estado do Ceará vem acumulando uma série de fatores que potencializariam sua capacidade de produzir e exportar Hidrogênio Verde (H2V) no contexto da transição energética mundial. E as razões são motivadas por inúmeras causas e várias condicionantes nas esferas política, econômica, social e científica-tecnológica.
O divisor de águas e o nascedouro deste protagonismo foi a criação do Hub de Hidrogênio no Porto de Pecém em 2021 onde o Governo do Estado participa na articulação política (estadual e federal) mediante a concessão de incentivos fiscais, a disponibilização de educação básica e a capacitação tecnológica. Adicionalmente, envida esforços institucionais para a viabilização de licenciamentos ambientais e a disponibilização de infraestrutura necessária para a execução de projetos de H2V.
A criação deste hub, instituído conjuntamente com a Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC), a Universidade Federal do Ceará (UFC) e o Complexo Industrial e Portuário do Pecém, convergia com uma tendência mundial de que o potencial de geração de energia renovável e sua localização próxima a portos estratégicos estimularia a criação de hubs de hidrogênio. Baseando-se em um modelo de cooperação multi-stakeholder, um dos grandes êxitos do hub seria conjugar, em um mesmo complexo portuário, diversas instituições nacionais e empresas multinacionais, permitindo a construção de um “cluster industrial costeiro”.
Outro passo significativo foi estabelecido quando do estabelecimento do corredor marítimo Pecém e Rotterdam, criando uma rota de comercialização do futuro H2V para Europa, consubstanciado por um acordo bilateral entre o Governo do Ceará e dos Países Baixos. Esta join-venture foi por demais estratégica pois Pecém, ao viabilizar inúmeras rotas comerciais, emergiria como uma infraestrutura logística fundamental, representando um ponto de inflexão no desenvolvimento econômico do Estado.
Destaca-se a retomada do Pacto pelo Pecém em 2023, ao reunir setores políticos, industriais, acadêmicos, sociedade civil e meio ambiente, configurado por uma governança multisetorial, sustentabilidade socioambiental e tendo o hub de hidrogênio o polo de produção de energia limpa. Em 2024, Governo do Estado e a FIEC lançaram o Masterplan do H2V, um estudo conduzido pela consultoria norte-americana IXL Center, a Universidade de Harvard, o Instituto Massachusetts de Tecnologia, pesquisadores, consultores sêniores e representantes de organizações públicas e privadas.
No mesmo ano, o Governo cearense assinou pré-contrato de R$ 9 bilhões com a empresa norueguesa Fuella AS (desenvolvedora e operadora de usinas de H2V e amônia) para instalação de uma planta na Zona de Processamento de Exportação do Porto do Pecém. E em janeiro de 2025, ratificando o esforço político na consolidação do H2V, o Governador do Ceará se reuniu com o CEO do Porto de Rotterdam com o objetivo de estabelecer novas parcerias e fortalecer projetos com o de Pecém.
Este panorama é sustentado pela posição geográfica do Ceará, permitindo-lhe explorar economicamente a energia solar, cujo potencial fotovoltaico seria estimado em 643 GW. No contexto eólico, estudos apontam favoravelmente à instalação de parques ao aplicar a distribuição de probabilidade de Weibull. Com isso, usufruiria da complementaridade energética, uma verdadeira vantagem competitiva.
Destaca-se, ainda, a implantação pela FIEC do Programa ESG (Governança Ambiental, Social e Corporativa), inédito em todo o sistema industrial brasileiro e um dos temas mais abordados no mundo corporativo. Com o Núcleo ESG, incorporar-se-ia a gestão do meio ambiente, fomentando o desenvolvimento de produtos que não tivessem impacto no meio ambiente, apresentando melhor rendimento em termos de eficiência energética. O grande diferencial seria a fabricação de “produtos verdes” sem a emissão de gases de efeito estufa.
Na expressão social, o Ceará tem priorizado a capacitação de recursos humanos. Exemplo disso ocorreu em maio de 2024 quando foi lançado o Projeto Estadual H-TEC Qualificação e Fortalecimento da Cadeia Produtiva em Energias Renováveis. O projeto tem o objetivo de apoiar a formação de profissionais qualificados, contando com a participação do Governo do Estado do Ceará, da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico, do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI/FIEC), da UFC, da Universidade Estadual do Ceará e do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE).
A carga horária é de 360 horas, sendo o SENAI o responsável por conduzir as aulas práticas, abordando temas como hidrogênio, distribuição de energia, energia eólica, energia solar e segurança do trabalho. Estima-se que serão capacitados 1.050 profissionais em uma primeira fase e uma expectativa de 10.650 até 2026. Ademais, há uma coletânea de cursos do SENAI voltados para a capacitação de recursos humanos em energias renováveis, conforme tabela abaixo.
Capacitações conduzidas pelo SENAI.
Por sua vez, a UFC se destaca na capacitação técnica-científica na área de transição energética. Sua participação consiste em disponibilizar docentes e pesquisadores nas áreas inerentes à tecnologia do H2V, disponibilizar os laboratórios para pesquisa e ensino e atuar de forma proativa nas pesquisas em desenvolvimento. Para tanto, possui, em sua infraestrutura acadêmica, o Parque Tecnológico para estimular a produção de conhecimento.
O IFCE está também vocacionando-se com a especialização de recursos humanos voltados para as energias renováveis. Existe um Campus do Instituto dentro da área do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP). Em 2024, lançou o curso de especialização (lato sensu) com apoio da Agência de Cooperação Alemã voltado para desenvolver soluções na cadeia de produção, distribuição e aplicações do H2V.
Merece destaque o Instituto Euvaldo Lodi (IEL) o qual vem acumulando expertises para capacitar profissionais no segmento de energia, atendendo às atuais demandas do mercado. Citam-se como exemplos o MBA em Gestão em Energias Renováveis (392h/aula), em parceria com o Centro Universitário Farias Brito e o Curso de Gestão de Energias Renováveis e Hidrogênio Verde (64 h/aula).
Na expressão científica-tecnológica, foi lançada a Rede de Pesquisa e Inovação em Energias Renováveis (Rede Verdes), em 2024, com o objetivo de realizar pesquisas básicas e aplicadas de forma colaborativa e multidisciplinar em torno de diversos tipos de energias limpas. O IEL/FIEC articula esta estratégia aproximando a academia com o setor produtivo, inclusive com a possibilidade de transferência de tecnologia para o setor de energia, gerando impactos socioeconômicos e ambientais.
O Centro de Excelência em Transição Energética Jurandir Picanço (SENAI/FIEC), inédito na Confederação Nacional da Indústria, é outro exemplo de prioridade na transição energética cearense, ratificando o compromisso com a descarbonização. A inauguração das infraestruturas ocorreu em março de 2024, contribuindo com o treinamento da força de trabalho destinada a produção de energia limpa no Estado.
Entretanto, há alguns desafios a serem considerados no processo de produção de H2V no Ceará a ponto de poder influenciar a competitividade do Estado a nível mundial:
a. O H2V requer uma quantidade significativa de água. Porém, regiões com maior potencial de energia renovável e espaço para usinas de H2V estão em áreas com escassez hídrica, como o Ceará. Para tanto, os entes político-econômicos vêm implementando alternativas para reutilizá-la ou dessalinizá-la.
b. O segundo desafio são os custos trabalhistas.
c. E o terceiro seriam os impostos brasileiros considerados o único componente do custo estruturado que poderia impactar a competitividade do Ceará (e do Brasil).
Desta forma, o somatório das circunstâncias acima teria a possibilidade de abrir oportunidades no mercado externo e fortalecer parcerias internacionais com base em interesses convergentes. Ademais, a consolidação da cadeia de produção do H2V no Pecém contribuiria para a descarbonização da indústria, dos transportes e o desenvolvimento do ecossistema no Estado, proporcionando-lhe maior segurança energética.
Depreende-se, também, que a integração interinstitucional apresentado no Estado vai ao encontro da Agência Internacional de Energia quando afirma que o desenvolvimento do hidrogênio de baixo carbono consiste em um desafio que requereria um trabalho simultâneo em múltiplas frentes e de maneira coordenada pois é a única forma de atingir o engajamento de todas as partes interessadas, como governos, indústria, agências de pesquisa, academia, serviços financeiros e sociedade civil.
Assim, a conjugação de ações nas esferas políticas, econômicas, sociais e científica-tecnológicas corroboraram nas atuais capacidades e potencialidades de produção de H2V no Ceará, proporcionando-lhe vantagens operacionais, logísticas e comerciais mais atraentes e competitivas como provedor de energia ao mercado internacional. No entanto, há desafios, os quais estão sendo devidamente acompanhados, que devam ser priorizados a fim de não comprometer este protagonismo.
REFERÊNCIAS:
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