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Transição energética

Fonte: Movimento Econômico (Bruno Brandão, 2025).

Com o advento da 1ª Revolução Industrial, a Inglaterra mostrou ao mundo, no início do século XIX, o meio de transporte capaz de percorrer longas distâncias, transportando cargas pesadas e/ou volumétricas. Nascia o modal ferroviário, o qual mudaria os parâmetros mundiais da logística de distribuição e de suprimento.

Das ilhas britânicas, as locomotivas a vapor e os trilhos ingleses foram exportados para a Europa, motivo pelo qual passou a contar com um sistema de transportes que alteraria definitivamente a economia do “Velho Mundo”. Transportando cargas ou passageiros, os trens mudaram o perfil do sistema fabril por garantir o escoamento, até o mercado consumidor, de produtos e bens lançados no mercado. No Brasil, durante o reinado de D. Pedro II, a inovação tecnológica de George Stephenson, à época, foi apelidada de “Maria Fumaça”.

Historicamente, as ferrovias desempenharam um papel crucial na integração nacional, fomentando o crescimento econômico. Comumente, a matéria-prima, a produção e o consumidor não se localizam próximos, criando um problema de logística, cujo papel fundamental caberia à atividade de transporte. Daí, pois, uma infraestrutura de transporte ter a função básica de promover a integração entre as sociedades que produzem bens diferentes entre si, ao permitir o acesso de produtos que, de outra forma, não estariam disponíveis ou estariam a um elevado preço.

As invenções e inovações, a partir do século XVIII e XIX, criaram as condições necessárias para a criação da locomotiva a vapor, findando na primeira máquina terrestre capaz de transportar (pessoas e cargas) para lugares relativamente mais distantes, surgindo o transporte que impulsionaria o progresso das nações.

Constata-se, pois, que existem relações recíprocas entre o processo de desenvolvimento socioeconômico desencadeado a partir da operacionalização de sistemas de transportes. Nenhum pode preceder ao outro por um período de tempo razoável, em função de suas estreitas relações mútuas. Assim, as melhorias de sistemas de transportes estimulariam os progressos na indústria e vice-versa.

Conforme o contexto, o transporte ferroviário poderia ser uma opção mais econômica e eficaz para mover cargas do que outros modais, como o rodoviário ou marítimo. Isto significaria diminuir custos, tornando as empresas mais competitivas. Pode trazer, também, benefícios ao meio ambiente, uma vez que utiliza menos combustível por tonelada transportada em comparação a outros modais, diminuindo as emissões de carbono e os impactos ambientais das atividades de transporte.

Verifica-se, então, uma relação direta entre as operações do modal ferroviário com o desenvolvimento socioeconômico em que este modal esteja construído. Cita-se, como exemplo, o deslocamento de contingentes populacionais, o escoamento da produção econômica e a interiorização do território, de Leste a Oeste, nos Estados Unidos da América (EUA), no século XIX.

Muitos países tiveram nas ferrovias seu maior estímulo ao desenvolvimento, viabilizando o crescimento mercantil. Aquelas condicionantes decorreram do fato que o modal ferroviário preencheria uma lacuna oriunda do transporte hidroviário, que não suportava cargas pesadas a grandes distâncias e as dificuldades em transpor barreiras naturais como montanha e serras.

A National Geographic Society afirma que entre 1840 e 1860, os EUA testemunharam um aumento de dez vezes a extensão de trilhos lançados, passando de 4.828 km para 48.280 km, permitindo-lhes a redução de custos do transporte e a expansão da fronteira agrícola e industrial do país.

Desta forma, a logística ferroviária seria fundamental para enfrentar o duplo desafio da descarbonização dos transportes e do crescimento econômico, ajudando os países a reduzir as emissões e, ao mesmo tempo, apoiar a competitividade, a criação de empregos e o desenvolvimento sustentável. Daí, o transporte ferroviário de cargas ter um papel fundamental na facilitação do comércio, na redução dos custos logísticos e na conexão entre polos de produção, portos e mercados.

Diversos países constataram a necessidade de relacionar políticas públicas e empreendimentos empresariais voltadas ao desenvolvimento socioeconômico, atrelando-os ao modal ferroviário (Quadro 1).

Quadro 1: Interrelação entre o sistema ferroviário e os benefícios socioeconômicos

Transição energética

Fonte: Banco Mundial (Qian, 2025).

As infraestruturas ferroviárias, ao estabelecerem ligações que possibilitam a troca de mercadorias, têm impulsionado de maneira notável o comércio entre nações na vasta e diversificada região da África. Esse aperfeiçoamento das linhas de trem movimenta cargas que cruzam fronteiras, permitindo que os países mediterrâneos sem litoral acessem o comércio exterior por meio das nações que possuem acesso ao mar.

Essa situação é positiva para o comércio local como um todo, aumentando as oportunidades de negócios e intercâmbios comerciais. A ferrovia Tazara, que liga a Tanzânia à Zâmbia, está sendo modernizada graças a um grande investimento chinês. Esse aporte tem como intuito modernizar a infraestrutura ferroviária e torná-la mais eficiente, visando otimizar o transporte de cargas e passageiros na área.

Por sua vez, o sistema ferroviário teve um papel fundamental no fomento ao comércio local, considerado crucial para o desenvolvimento econômico do Quênia. Esse progresso reduziu drasticamente o tempo e os custos de deslocamento entre Nairóbi e Mombaça. Recentemente, a Kenya Railways revelou que, em 2023, conseguiu transportar 5 milhões de toneladas de carga, um marco que demonstra o quanto esse meio de transporte é vital para os negócios e para o comércio em geral, ressaltando o papel estratégico da ferrovia na economia do país.

Na Ásia, a conectividade dos transportes, em particular o sistema ferroviário, é estratégico para impulsionar o crescimento econômico, a resiliência regional e aprofundar a integração entre os países da Sub-região do Grande Mekong - Camboja, China, Laos, Myanmar, Tailândia e Vietname.

Na Rússia, o transporte ferroviário é um ramo da economia que garante o funcionamento contínuo de todos os setores econômicos, desempenhando um papel crucial na Federação Russa ao exercer influência significativa no desenvolvimento do país. Consequentemente, o transporte de passageiros e de cargas é o elo em uma cadeia que envolve um grande número de indústrias afins.

Em outras partes do mundo, o modal ferroviário atende às necessidades do transporte de produtos agrícolas (milho, algodão, soja, entre outros) bem como produtos siderúrgicos, minérios e derivados de petróleo, sempre em quantidades elevadas, minimizando os custos com frete.

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