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Transporte

Foto: Trendsce (2026)

Consagrou-se mundialmente que os sistemas de transportes são concebidos para atingir objetivos econômicos (explorar recursos naturais, elevar a produtividade agrícola, escoar produtos industrializados, entre outras finalidades) e não econômicos, como a promoção da integração territorial e a interiorização da população para áreas de menos densidade demográfica.

Entre os modais de transporte, o ferroviário é basicamente um transportador de longo curso e de baixa velocidade para matérias-primas e produtos manufaturados, refletindo uma tendência pelo movimento de grandes volumes. Assim, as ferrovias viabilizam uma diversidade de serviços, como o transporte de granéis, carvão, cereais e produtos refrigerados.

Ainda no ano de 1872 (II Reinado de D. Pedro II), o Ceará já dispunha de estudos para uma ferrovia que pudesse cortar o território no sentido Norte-Sul cuja proposta se denominava “Projeto Ferroviário Fortaleza-Pacatuba-Baturité-Crato”.

Figura 1: Projeto Ferroviário “Fortaleza-Pacatuba-Baturité-Crato”

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Fonte: Assis (2011) apud Alencar (2021).

À época, a intenção seria que os fluxos de produtos e cargas provenientes do interior cearense fossem transportados para a capital. Naquela ocasião, as mercadorias cruzariam o sertão, desde as regiões localizadas mais ao sul (Cariri), atravessando o sertão central da província (Quixadá e Quixeramobim) até chegar a Fortaleza. Acreditava-se que a ida dos trilhos ao sertão representaria a possibilidade de melhorar a precária vida nos rincões sofridos pela seca e de permitir a rapidez no escoamento do algodão e de outros produtos agrícolas à capital da província Ceará.

Décadas depois, se imaginava que, com a chegada da ferrovia no extremo sul do Ceará, poder-se-ia estender um braço ferroviário até as margens do rio São Francisco, em Petrolina-PE (Figura 2). Neste novo projeto, corroborar-se-ia com os interesses de integração nacional, interligando as bacias hidrográficas brasileiras por vias férreas. Acreditava-se que a combinação da navegação a vapor e dos trens facilitaria a comunicação e incentivaria a ocupação de áreas não povoadas (baixa densidade demográfica).

Figura 2: Projeto para levar os trilhos do Ceará até o rio São Francisco (1892)

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Fonte: Cartografia da Fundação Biblioteca Nacional.

Nos anos de 1990, surge o projeto da Ferrovia Transnordestina, considerado uma das principais obras estruturantes do Nordeste brasileiro e o maior projeto ferroviário no Brasil. Interessante notar a semelhança dos traçados da ferrovia idealizada no Império (Figura 1) com o traçado da Transnordestina (Figura 3).

Quando estiver finalizada, prevista para 2027, a Transnordestina terá uma extensão de 1.200 quilômetros. Esse projeto visa conectar as diversas regiões produtoras localizadas no interior do país aos portos situados no litoral, contribuindo para aumentar a competitividade na logística de transporte. Além disso, a Transnordestina deverá reduzir os custos associados ao transporte de mercadorias, impulsionando o desenvolvimento econômico nas regiões envolvidas.

Além de proporcionar um fortalecimento significativo das cadeias produtivas, esse equipamento desempenhará, também, um papel crucial na criação de novas oportunidades de emprego e na geração de renda para a população, sendo fundamental para ajudar a diminuição das desigualdades que existem entre diferentes regiões, contribuindo assim para um desenvolvimento mais equilibrado e justo.

A ferrovia atravessará, ao todo, 53 municípios brasileiros, interligando Eliseu Martins (Estado do Piauí) ao Porto do Pecém (Estado do Ceará) e ao Porto de Suape (Estado de Pernambuco). De acordo com o Ministério dos Transportes, 608 km estão em solo cearense, cortando 28 cidades. Desde sempre, a ferrovia é caracterizada como uma obra essencial para o futuro industrial do Ceará ao criar condições para a atração de novos investimentos e propiciar o fortalecimento das cadeias produtivas já instaladas.

Figura 3: Projeto Ferroviário Transnordestina

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Fonte: Secretaria de Desenvolvimento e Infraestrutura (2017).

Considerada a maior obra linear em construção no Brasil, a ferrovia redesenha o mapa logístico no Nordeste, conectando áreas agrícolas e minerais do interior do Piauí, do Ceará e de Pernambuco, tendo sido projetada para o transporte de cargas como grãos, algodão, minérios, gesso/gipsita e contêineres. Esta infraestrutura caracterizar-se-ia como um indutor da produção industrial no Ceará, beneficiando a economia, diminuindo os custos de insumo e melhorando a logística no Estado.

Em Quixeramobim, com o porto seco, várias instituições econômicas estão interessadas em investir na infraestrutura e na área de logística no município. São empresas do setor de combustíveis, atacadista (Assaí), Centro de Distribuição (Mercado Libre e Shopee), fertilizantes, ração animal, frigoríficos e laticínios. Com isso, a cidade tornar-se-ia uma zona de distribuição regional com competitividade para reduzir os custos dos negócios no Estado e na região Nordeste, decorrente da localização geográfica privilegiada (Sertão Central do Estado) e situada dentro de um entroncamento rodoviário.

O transporte de cargas vindo do Estado do Piauí incluiria soja, farelo de soja, milho e calcário, a partir do Terminal de Cargas até a região Centro-Sul do Ceará. Estes produtos seriam provenientes do cultivo de grãos que fica na área compreendida nos Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia (conhecida como MATOPIBA). Estudos do Ministério da Agricultura e Pecuária e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária projetam um salto de produtividade em MATOPIBA dos atuais 9,4 milhões de hectares plantados (2022-2023) para 11,1 milhões de hectares (2032-2033), sendo a Transnordestina responsável pelo escoamento de parte desta produção agrícola.

A diversidade no transporte de cargas é elevada, motivo pelo qual a ferrovia foi tecnicamente projetada para estas particularidades de movimentação (Quadro 1).

Quadro 1: Projeção das cargas transportadas pela Transnordestina no Ceará

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Fonte: Revista Ferroviária (2025).

Outra situação relevante ocorreria quando o Hub de Hidrogênio Verde, localizado no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, estivesse operacional. Com isso, seria possível a produção de fertilizantes no Hub, a base de amônia verde (NH3), a qual seria escoada aos produtores agrícolas do interior do Ceará e os de MATOPIBA.

Como o traçado final da Transnordestina finaliza no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, a previsão seria duplicar a movimentação portuária anual com as cargas provenientes da ferrovia. Não por acaso, o Porto do Pecém terá dois novos berços, um no Píer 2 e outro no Terminal de Múltiplas Utilidades/TMUT. Este último, denominado Terminal Portuário de Uso Privado da Nordeste Logística S.A (TUP Nelog), é um projeto estratégico focado na movimentação de grãos, minérios, fertilizantes e contêineres com previsão de operação plena em 2026. Até 2057, a expectativa é de que sejam movimentadas 33 milhões de toneladas de grãos, minérios e cargas no geral.

REFERÊNCIAS:

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  • ALVES, E. G. de C.; RAMOS, R. B. da S.; SILVA, C. R. Transporte ferroviário no Brasil: Desafios e oportunidades. Revista Conecta, São Paulo, Brasil, v. 3, p. 15–27, 2020. https://doi.org/10.0000/rc.v3i.18. Disponível em: https://www.fatecrl.edu.br/revistaconecta/index.php/rc/article/view/18. Acesso em: fev./2026.
  • ASSIS, R. J. S. de. Ferrovias de papel: projetos de domínios territoriais no Ceará (1864-1880). 2011. Dissertação (Mestrado em Geografia) - Centro de Ciências, Universidade Federal do Ceará. Fortaleza, 2011.
  • BRASIL, Ministério dos Transportes. Conselho Nacional de Transporte. Planos de viação: evolução histórica (1808-1973). Rio de Janeiro: Imprint O Conselho, 1974.
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  • CAIXETA-FILHO, J. V.; MARTINS, R. S. Gestão Logística do Transporte de Cargas. Editora Atlas S.A. São Paulo, 2009.
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  • Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP). Terminal de tancagem do Porto do Pecém deve ampliar logística de distribuição de combustíveis e aumentar competitividade no Ceará. Publicado em: 05 dez. 2024. Disponível em: https://www.complexodopecem.com.br/terminal-de-tancagem-do-porto-do-pecem-deve-ampliar-logistica-de-distribuicao-de-combustiveis-e-aumentar-competitividade-no-ceara/ Acesso em 05 jan. 2026.
  • Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC on line). FIEC, Prefeitura de Maranguape e Transnordestina discutem estratégias para desenvolvimento industrial do município em torno da ferrovia. Publicado em: 12 fev. 2026. Disponível em: https://www1.sfiec.org.br/fiec-noticias/search/170769/fiec-prefeitura-de-maranguape-e-transnordestina-discutem-estrategias-para-desenvolvimento-industrial-do-municipio-em-torno-da-ferrovia Acesso em: 14 fev. 2026.
  • LEMOS, M. Quatro rodovias estaduais com conexão à ferrovia Transnordestina recebem obras no Ceará. Intervenções são fundamentais devido ao futuro aumento de fluxo de cargas. Diário do Nordeste. Publicado em: 24 jun. 2025. Disponível em: https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/negocios/quatro-rodovias-estaduais-com-conexao-a-ferrovia-transnordestina-recebem-obras-no-ceara-veja-locais-1.3662160 Acesso em: 05 jan. 2026.
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  • RODRIGUES, L. Quixeramobim projeta dobrar PIB em 10 anos com Transnordestina e Porto Seco. Cidade do Sertão Central receberá investimentos bilionários nos próximos anos. Diário do Nordeste. Publicado em: 21 jul. 2025. Disponível em: https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/negocios/quixeramobim-projeta-dobrar-pib-em-10-anos-com-transnordestina-e-porto-seco-1.3670568 Acesso em 15 fev. 2026.
  • SOUSA NETO, M. F. de. Planos para o Império: Os planos de viação do Segundo Reinado (1869-1889). São Paulo: Ed: Alameda. 2012. 242 p.
  • VARGAS, P. Com Transnordestina, Porto do Pecém vai dobrar movimentação e escoar 40 mi de toneladas por ano. Diário do Nordeste. Publicado em: 09 dez. 2023. Disponível em: https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/negocios/com-transnordestina-porto-do-pecem-vai-dobrar-movimentacao-e-escoar-40-mi-de-toneladas-por-ano-1.3453248 Acesso em: 17 fev. 2026.